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Quando me olhava no espelho às vezes me assustava comigo mesma. As fisionomias poucas vezes se mostram tão sombrias, mas as cavidades escuras de meus olhos atestavam melhor do que qualquer viva pupila a gravidade do que acontecia em minha alma. Sozinha conversava com meus fantasmas, mas minhas palavras eram dispersas, apresentavam uma semelhança estranha com o negrume de maus olhos, com aquele vazio, às vezes eu mesma não me compreendia...

Mas um jovem ansiou por minha mudança, comoveu meu coração e se mostrou doce e galante. Me lembro de ter-me dito certa vez, que me via como um coração frio, que em contemplava como a quem contempla um castelo de vidro num ambiente gelado, simplesmente inalcansável, ainda me recordo de tuas palavras, me assustaram de imediato, mas logo entendi o porque delas. Percebi que para ele minhas palavras eram distantes, que evocavam uma atmosfera sombria, que ao meu redor e em minha face reinavam um frio que não cessava de se propagar, mais e mais a cada noite.

À ele eu estava disposta a me desvencilhar de toda àquela frieza; aos poucos, minha face foi deixando de parecer imobilizada, como que chegada do necrotério; os olhos foram os primeiros a perderem aquele negrume, passaram a reluzir como brasa sob o vento.

Só então compreendi, só depois de contemplá-lo é que entendi por que era tão solitária, tão triste, o porque de eu me sentir tão vazia. Entendi que era a parte de minha alma faltava; compreendi que era porque estava incompleta; somente depois de comtemplá-lo é que soube que ele, aquele homem era minha essência, hoje sei que ele era a parte que faltava de minha alma.

Aquela noite, sempre, eternamente em minha mente, noite fria de outono quando uma rosa e uma composição se fizeram as armas daquele cavalheiro, suas eternas aramas de "guerra".

E a noite avançando, estendendo seu manto negro sobre nós e nossas almas quando sozinhos e acompanhados, quando um beijo aconteceu, sempre, eternamente a lembrança de tão inesquecível noite que me tirou de meu calvário apenas por acreditar naquele anjo de barrocos cachos e olhos febris.

Ainda acredito; naquela noite eu não estive mais pálida, já não me sentia um fantasma, transparente e vaga; aquele beijo, aquela rosa e aquela composição me preencheram, á não estava mais fria e nenhum grito se prendia à minha garganta, eu finalmente pude me mexer.

De repente, quando abri os olhos me deparei com uma nova realidade, uma existência mais doce e fácil, as arvores se abriram e eu pude veras estrelas que nos guiavam, pude finalmente respirar e sentir o suave perfume daquele rapaz, o que eu jamais havia sentido antes, tão belo e tão frágil, tive medo de toca-lo, tive medo de quebrá-lo, tão delicado meu eterno amor, tão sensível, uma existência tão doce numa realidade tão cruel.

Meu poeta, sempre compositor, para sempre imersa nesta harmoniosa existência, sempre dele, sempre na noite, sempre vivendo em meio àquelas rimas, ou melhor, morrendo ao teu lado o pouquinho que se morre todos os dias, sempre morrendo e amando-o, sempre amada e imersa nele, sempre.



- Postado por: por Göthica às 07:36 PM
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